Antes de mais vou começar por dizer quem sou. O meu nome é Isáque Kayel e sou uma das mais conhecidas pessoas do mundo, pois fui o primeiro e único cego que reaviu a visão por milagre.
Mas antes disso vou explicar-vos tudo numa história, desde a minha infância até aos dias de hoje.
Nasci de pai e mãe cristãos e de avós muçulmanos, aos meus nove anos de vida foi-me diagnosticada uma cegueira maligna, ou seja, aos meus dez anos ceguei por completo tendo desde então ficado com o futuro destroçado e com os desejos apagados.
Desde então isolei-me em casa, ou melhor, no meu quarto. Passados dois anos, tive um amigo a quem chamei Ciáram. A quem chamei, pois Ciáram era um amigo imaginário, porque assim só eu o “via” e só eu sabia a sua aparência.
No início falávamos de diversões e brinquedos mas com o passar do tempo amadureci e começámos a falar sobre os meus momentos de tristeza e sofrimento. As conversas mais marcantes acerca disso foram assim, um dia acordei triste comigo e disse:
- Estou farto, quero morrer, a minha vida é uma desgraça, olha pra mim, cego e inútil.
- Acalma-te, deves dar-tea oportunidade de seres feliz com aquilo que tens e com aquilo que és[1] - disse-me ele para me ajudar.
Foi então que lhe perguntei:
- Tens medo da morte?
- Não, porque a ideia da morte leva-me a aproveitar a vida[2],disse ele, descontraído.
Passaram-se os anos e saí do meu quarto, decidi que ia correr atrás dos meus sonhos, pensei em ser pintor porque, segundo o que Van Gogh disse, deves pintar o que vês da forma como o sentes[3].
Mas senti-me mal por não conseguir ver as minhas pinturas.
Ciáram nesses momentos dizia:
- Não é a cegueira, é a felicidade, ela é que te impede de ver o mundo tal como ele é[4].
Foi então que comecei a escrever, e nos meus poemas escrevia coisas tristes por causa do desejo de voltar a ver.
O meu primeiro poema foi assim:
Três ratos cegos
Vejam como correm
Vão atrás a mulher do camponês
Cortou-lhes o rabo com uma faca
Já viram alguma coisa igual a três ratos cegos?[5]
Comecei a escrever mais e mais, já não conseguia parar de escrever. Foi então que me auto-diagnostiquei um escritor compulsivo.
Quando eu já tinha os meus trinta anos, escrevi o meu maior êxito que era assim:
O planeta está doente
O humano tortura-o
No avanço de poluição
Turbulenta e sem cura
Pelo sangue e destruição
Do humano sem ternura
Poluído em terra e rios,
Seus mares astros e ar
Doença em grande avanço
Que a vida irá matar
Pela degradação humana, e não te saber amar[6].
Ciáram disse-me um dia muito seriamente:
- Devesdistinguir entre uma vontade espontânea e uma vontade bem reflectida[7].
E foi por isso que decidi escrever o meu último poema.
Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu,
Pois cara sem olhos viu
Olhos que lhe custam caro.
D’olhos não faço menção
Pois quereis que olhos não sejam
Não vos vendo, olhos não são.[8]
Um dia, aos meus cinquenta anos, desmaiei em plena rua e fui levado para o hospital. E quando acordei nem queria acreditar no que estava a ver, sim! “a ver”, milagrosamente nesse dia eu voltara a ver de novo.
No início fiquei contente mas quando eu saí para a rua fiquei decepcionado, um desastre.
E foi quando me pus a pensar no Ciáram, que um dia me disse:
Não és mais feliz quando estás à procura de uma coisa do que quando finalmente consegues tê-la?[9]
Fiquei parado um pouco quando de repente ao longe vi um pontinho que se transformou numa pinta que se transformou numa mancha que se transformou num vulto que se transformou num rapaz, que me disse:[10]
- Vem, anda comigo, o Ciáram está à tua espera em casa.
Atrapalhado e sem reacção, segui o rapaz até uma casa. Quando entrámos, dirigimo-nos para a sala de estar, e no sofá estava… Sim, ele mesmo tal e qual como eu o criara na minha cabeça. Foi quando ele me disse:
- Lembras-te, por vezes chorámos juntos mas não dizíamos jamais a razão das nossas lágrimas[11].
Depois disso falámos e eu acabei por continuar a minha vida.
Acabei por morrer em 1997 mas deixei escritas duas frases dedicadas aos meus fãs: “Porque sempresonhei com grandes aventuras e fiz sonhar todos aqueles que me leram”[12]; “E,sempre quequiserem, podemdar-me nova vida, bastando para isso, apenas, folhear-me.”[13]
Ígor Morgado, 7º6, PUZZLE DE TEXTOS, texto criado a partir de obras da BE lidas pelo aluno ao longo do ano lectivo
[1]BRENIFIER, O que é a Vida?, Dinalivro
[2]BRENIFIER, Quem Sou Eu?, Dinalivro
[3]Chamo-me… Van Gogh, Didáctica Editora
[4]BRENIFIER, O que é a Felicidade?, Dinalivro
[5]Chamo-me…Agatha Christie, Didáctica Editora
[7]BRENIFIER, O que é a Liberdade?, Dinalivro
[8]Chamo-me…Luís de Camões, Didáctica Editora
[9]BRENIFIER, O que é a Felicidade?, Dinalivro
[10]BOYNE, John, O Rapaz do Pijama às Riscas, Asa
[11]GAARDER, Jostein, Uma viagem ao mundo fantástico, Edit. Presença
[12]Chamo-me…Júlio Verne, Didáctica Editora
[13]Chamo-me…Johannes Gutenberg, Didáctica Editora


