Contas-me uma história?

Casa das Histórias Paula Rego. Gonçalo M. Tavares, escritor. Tónan Quito, actor. Escrita e Imaginação, Acção e Leitura!
 Este foi o rol de elementos que nos fizeram aderir a dois fins-de-semana de escrita narrativa, a partir de obras (ou de pormenores de obras) da internacionalmente conhecida Paula Rego.
Os quadros da pintora davam o mote. O escritor Gonçalo M. Tavares (vencedor do Prémio Literário José Saramago 2005, entre outros) introduzia e despertava, com perícia, diversas técnicas de construção e desconstrução textual.
E assim surgiram alguns textos, em diferentes estilos. O essencial, porque estávamos na Casa das Histórias, era escrever uma história, uma narrativa. E depois contá-la. Com as técnicas trazidas pelo actor convidado, na arte de dizer e de contar.
Eis alguns exemplos de textos e os pormenores dos trípticos que os inspiraram, numa escrita livre e não descritiva.
As avestruzes bailarinas
Elisabete vestiu o seu fato antigo. Mal lhe servia. Embora já não dançasse, gostava de assistir aos ensaios das outras.
Observava-as.
Ela também já tivera um pescoço assim… infinito.
Olhou para o espelho e ensaiou um gesto com os braços! Pareciam trambolhos!
Às vezes ainda tinha vontade de desafiar a gravidade e a idade, mas estava pesada, sentia-se como as avestruzes. Não que gostasse de enfiar a cabeça na areia, mas tal como elas, tinha desaprendido de voar.
                                                                                                            Cecília Lourenço, Professora da Equipa da Biblioteca Escolar
Human Cargo (escrita a partir de um pormenor do tríptico)
Mariana está presa no quarto. A mãe, que estava na cozinha a preparar o jantar, ouve a sua voz sussurrante e oferece-se para a ajudar a sair. Traz-lhe um naco de pão e um copo de água numa bandeja.
Pelo postigo lateral do quarto, recomenda:
- Come, querida, que o teu mal são nervos. Estás preocupada com os exames que estão à porta.
A menina trinca o pão. Mas parte o aparelho. Bebe um trago, mas o veneno é letal. Sucumbe do lado de lá da porta.
Entretanto, a chave desaparecera. A mãe fica aprisionada na sua maldade, sem conseguir escondê-la. E agora?
                                                                                                                                                                  Mª Carla Crespo (PB)
Human Cargo (escrita a partir de um pormenor do tríptico. Estilo “Eu cá” – popular)
Mariana está bué da presa no quarto, meu. A cota, que preparava minuciosamente a janta, com couves, repolho, feijão, orelha, toucinho e o caraças, ouve a chavala a grunhir lá do canto da casa milimetricamente oposto ao do fogão e oferece-se para acudir à moçoila e ajudá-la a sair. Vai a correr, esbaforida e afogueada, bota-lhe um naco de pão pela goela abaixo e arremessa-lhe um copo de água pelo garguejo. Cheia de raiva, diz à cachopa:
- Deita isso pela goela abaixo, que o teu mal são nervos. Tás acagaçada c’os exames, minha!
A miúda afifa os morfes no pão c’o diabo amassou. Só que parte o aparelho, c’um caraças! Depois, bebe um trago, mas morre estatelada no chão. A água, afinal, era um veneno letal e a chavala estica o pernil do lado de lá da porta.
O raio da chave sumira-se. A mãe fica bué da podre! Não consegue esconder a maldade que fizera. E agora? Vira-se o feitiço contra o feiticeiro…
                                                                                                                                                  Mª Carla Crespo (PB)
As Avestruzes Bailarinas
 
Perderam no ovo
a memória do voar.
 
As avestruzes.
 
Têm desejos aerodinâmicos.
Dormem numa febre de sentir
encostando ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices
motores.
 
Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer à própria sombra.
 
Aspiram soluçando à forma das fuselagens.
 
Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.
 
Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória
de uma estrela de um cometa
ou de uma asa.
                                                             José Fanha