A Fernão continua em alta. Parabéns a todos!

PRÉMIO ILCE  A LAS PRÁCTICAS DOCENTES INNOVADORAS EN IBEROAMÉRICA Y EL CARIBE - 3º lugar na categoria Proyectos Educativos com el uso de recursos innovadores
Mais um prémio, o único atribuído a um país europeu, em reconhecimento do projeto Outros em Nós, dinamizado pela professora Sofia Santos, com o apoio dos docentes  Nuno Faria, Rodrigo Miragaia, António Rocha,  Isabel Rosendo e Gil Rodrigues e que envolveu alunos do 12ºano dos cursos científico-humanísticos e dos cursos profissionais de Turismo e Eventos.
Impressionante o testemunho da aluna Eva Mendes, registado na candidatura e que não podemos deixar de publicar.

“Alguns poderão ver-nos como a materialização de uma história de amor, uma paixão platónica há muitos anos escondida e contida, entre música e poesia. A perfeita simbiose que no fim da nossa estadia nesta escola criou e fez nascer um cumulonimbus de luz e arte. Fernando Pessoa pelos olhos, boca e ouvidos de alunos pré-universitários, finalistas de uma longa viagem de português e Portugal. Pessoa tinha os heterónimos, nós temos os outros em nós. Como todos os contos de amor, este foi demorado e, ainda que belo, inspirou e fez sofrer. Como juntar jovens tão diferentes e criar algo uníssono, consistente, uma relação estável? A poesia ajudou. Não sei quantas almas tenho foi a escolha para a criação da nossa primeira música. Não sabíamos, de facto, quantas almas diferentes existiam entre nós, quantas perspectivas e ideias distintas andariam escondidas dentro de cada um dos nossos seres. Foi um bom ponto de partida, pois revelou-se uma convergência direta entre o poeta e o ouvinte. Pegar, portanto, nesta confusão criativa e criar algo novo, honrar as palavras e pensamentos deste homem que nos inspirou. Nascemos, então, como um grupo, como uma banda, uma amizade que visou desde o primeiro dia musicalizar a mensagem que aprendíamos desde pequenos. Três guitarras, quatro vozes, um baixo, bateria, violino – nós.
     Chegou o dia em que tivemos, efetivamente, de nos batizar, pois “a banda da Fernão Mendes Pinto” era um nome demasiado escolar e plácido para todos os efeitos. Analisámos os nossos poemas preferidos, pesquisámos as obras em inglês, português, francês. Queríamos à força toda ser internacionais! Fernando fascinou-nos, falava sobre a mãe, o lar, a felicidade e o sentir, a família, o passado e, no mesmo plano, contrapunha-se e atacava-nos com menções honrosas à morte e à tristeza, ao desespero de viver e sobreviver. Como se a felicidade fosse um ser intocável e em decadência, e não nos restasse mais nada para além de olhá-la como uma peça de museu, uma peça longínqua e a morrer, existente para ser vislumbrada com olhos magoados. Flores, rosas, leitos, efemeridade. Rosas em cinza, Roses of Ash, surgiu neste contexto de beleza etérea e de morte certa. O objeto que de tanta beleza, chora. As memórias de um tempo que, cada vez mais distante, arde até desaparecer por completo. Esta é, tão simplesmente, a origem do nosso nome que, podendo ter seguido outros caminhos perfeitamente seguros e legítimos, seguiu por este e acabou num buquê de rosas vermelhas em fogo. Sempre foi como uma história de amor.
     Utilizar o som para eternizar estes poemas foi, no mínimo, um desafio. Que música encaixaria em Pessoa? Que género? Que sentimento queremos transmitir? Felicidade? Tristeza? Dor? Esta é uma das perguntas às quais ainda não conseguimos responder, mas talvez isso faça parte do constante entusiasmo que contamina os nossos ensaios. Uma série de experimentações que vão desde o rock aos blues, do punk ao new wave. No fundo, cada um dá um pouco de si à composição, partilhando um pouco do seu ser e do seu sentir, criando assim um homem novo, disforme e desequilibrado, mas da mais poética melodia possível. Para nossa surpresa, resultou.
     Isto é quem nós somos, muitos e outros dentro do mesmo regaço, a tentar encaixar notas nas palavras que nos apaixonaram. Como disse, a perfeita simbiose, uma metamorfose em processo e crescimento.
Esperemos que o nosso trabalho seja apreciado e ouvido, e que quem o encontre se lembre dele, não por nós, mas por Pessoa, o nosso poeta. Porque ler Pessoa é ler o Português, e ouvir Pessoa é ouvir Portugal.”